O amor e a inutilidade
Uma reflexão sobre o livro "A metamorfose" de Franz Kafka
E se um dia você acordasse e percebesse que perdeu uma boa parte da sua capacidade física e cognitiva? O que você acha que aconteceria com você?
Tente imaginar sem pressa.
Imagine seu corpo não respondendo aos seus comandos, sua mente embaralhada e a sua rotina, tão metodicamente estabelecida, sendo interrompida.
Pense em como você não consegueria fazer atividadaes básicas como se levantar e escovar os dentes, ou dar uma bela espriguiçada ao acordar…
Nesse momento, quem estaria com você? E quem se afastaria?
É mais ou menos assim que começa A Metamorfose, de Franz Kafka. Gregor Samsa, personagem principal, acorda transformado em um inseto. Mas, com o passar das páginas, percebemos que a grande mudança não está no corpo, está na forma como ele passa a ser visto. Gregor deixa de ser útil, não pode ir ao seu trabalho, não pode sair de casa…
De início seus familiares ficam com medo e uma certa repulsa, mas ao longo da história percebemos que o medo não está relacionado a vida de Gregor, mas assim ao dinheiro que ele trazia para casa, ou seja, sua utilidade.
Enquanto sustentava a casa, enquanto cumpria horários, enquanto resolvia problemas, ele tinha lugar, mas quando perde a capacidade de produzir, ele passa a ser um incômodo. Algo que precisa ser escondido. Algo que atrapalha.
Kafka nos mostra isso de uma forma bem perturbadora porque no fim das contas essa história é sobre nós.
Se eu não puder mais fazer o que faço hoje, ainda serei amado?
Se eu falhar, adoecer, parar… ainda terei valor?
Vivemos tentando ser úteis. Úteis no trabalho. Úteis na família. Úteis até nos relacionamentos. Como se o amor fosse uma recompensa pelo desempenho. Como se a nossa permanência dependesse do quanto conseguimos entregar…
Foi pensando nesse assunto que me lembrei de um vídeo do Padre Fábio de Melo falando sobre essa questão da utilidade. Não encontrei o vídeo, mas “fuçando” a internet encontrei o texto. Vou compartilhar com você:
"Ser útil para alguém é uma coisa muito cansativa. É interessante você saber fazer as coisas, mas acredito que a utilidade é um território perigoso porque, muitas vezes, a gente acha que o outro gosta da gente, mas não. Ele está interessado naquilo que a gente faz por ele. E é por isso que a velhice é esse tempo em que passa a utilidade e aí fica só o seu significado como pessoa. Eu acho que é um momento que a gente purifica. É o momento em que a gente vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade. Porque só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado. É por isso que eu sempre peço a Deus para envelhecer ao lado das pessoas que me amem. Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranquilidade de ser inútil, mas ao mesmo tempo, sem perder o valor. Quero ter ao meu lado alguém que saiba acolher a minha inutilidade. Alguém que olhe para mim e saiba que eu não servirei para muita coisa, mas que continuarei tendo meu valor. Porque a vida é assim. Se você quiser saber se o outro te ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se você ama alguém? Pergunte a si mesmo quem nessa vida já pode ficar inútil para você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora. É assim que descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem, ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir a fala que diz: "você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você."
Depois de ler esse texto, fica difícil não voltar à história de Gregor Samsa.
Onde estava o amor quando Gregor se tornou “inúltil”?
E é aqui que, sem perceber, meu pensamento vai para Jesus.
Porque, se existe alguém que ama o inútil, é Ele.
Não porque sejamos inúteis em essência, mas porque, diante de Deus, não temos nada para oferecer em troca. Nenhuma barganha. Nenhum currículo. Nenhuma garantia.
A Bíblia diz que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8).
Não quando estávamos prontos. Não quando éramos fortes. Não quando éramos úteis.
Mas quando estávamos perdidos.
Quem somos nós diante do Criador dos céus e da terra? Não somos nada, e, ainda assim, fomos amados!
Isso é o que chamamos de graça. Um amor que não depende da nossa capacidade, da nossa performance ou da nossa utilidade. Um amor que não se retira quando falhamos. Um amor que permanece.
Kafka nos mostra o que acontece quando o amor acaba junto com a utilidade.
Jesus nos revela o oposto: um amor que começa exatamente aí.
E talvez a grande pergunta que fique não seja “quem me amaria se eu não servisse para nada?”, mas:
Será que eu tenho a capacidade de amar alguém que não tem nada a me oferecer?
Que a gente experimente essa graça.
E que, tocados por ela, a gente aprenda a amar do mesmo jeito.
Com carinho,
Thaiane



